Europa em alerta: o risco real de ficar refém da tecnologia dos EUA

A ideia, que por muito tempo pareceu exagerada, ganhou força após a nova escalada política entre Washington e aliados europeus, incluindo as ameaças de Donald Trump envolvendo a Groenlândia. O temor é que a dependência europeia de provedores, softwares e plataformas americanas passe a ser um risco estratégico direto. Hoje, essa dependência é profunda: clientes europeus gastaram quase US$ 25 bilhões com os cinco maiores provedores americanos de infraestrutura em nuvem em 2024, o equivalente a 83% desse mercado, enquanto iniciativas europeias estimam que cerca de 80% da infraestrutura e das tecnologias digitais do continente ainda sejam importadas.

Nos últimos meses, a soberania digital passou a ser tratada como tema de segurança econômica e institucional. Em fevereiro de 2026, a comissária europeia Maria Luís Albuquerque afirmou que a Europa precisa manter controle sobre tecnologias-chave, enquanto especialistas alertaram que a forte concentração em poucos provedores de nuvem não europeus aumenta a exposição a ataques cibernéticos e a choques geopolíticos. Essa preocupação já virou ação regulatória. A supervisão europeia prevista no DORA começou em janeiro de 2026 para acompanhar fornecedores críticos de tecnologia usados pelo sistema financeiro.

Ao mesmo tempo, a União Europeia tenta construir alternativas próprias. O Parlamento Europeu aprovou em 2025 um relatório defendendo maior soberania tecnológica, com foco em reduzir dependências estratégicas em cloud, software, semicondutores, IA e infraestrutura digital. No plano operacional, Bruxelas vem apoiando a visão do EuroStack, ampliando instrumentos como os EDICs para projetos multinacionais e destinando novos recursos para autonomia estratégica digital e IA, inclusive por meio das chamadas AI Factories. A Europa quer deixar de ser apenas usuária de tecnologia e passar a controlar uma parcela maior das camadas essenciais da economia digital.

A transição será difícil e lenta. Empresas europeias alertam que romper rápido demais com as big techs americanas pode elevar custos, reduzir competitividade e criar novas ineficiências, porque AWS, Microsoft e Google seguem no centro da infraestrutura digital do continente. A Europa já entendeu que dependência tecnológica também é vulnerabilidade geopolítica.